A poucos meses Cantão e Poranga eram apenas dois filhotes fofos de onça. Eles tinham acabado de chegar a uma fazenda no Tocantins, que cuida de animais silvestres, e estavam aprendendo a comer carne. Pouco meses se passaram e os dois viraram duas grandes feras. As onças-pintadas agora impressionam pelo olhar forte, corpos robustos e passos firmes em direção à presa.
Uma equipe de reportagem do G1 acompanha o trabalho do Instituto Vale Rico, em Abreulândia, que cuida, ajuda na reabilitação e reinserção de animais na fauna do estado. Pela primeira vez, um casal de onça está sendo criado no local. O objetivo é promover a reprodução de onças-pintadas em cativeiro e ajudar a espécie a sair da lista de animais ameaçados de extinção.
Cantão tem um ano e três meses. Já Poranga tem cerca de um ano e foi enviada aos instituto após ser resgatada na beira de uma estrada. Chegou a ter crise de adaptação do leite. Com a imunidade baixa, perdeu os pelos da face. Com essas fase superada, agora esbanja vitalidade e beleza. Pelas fotos e os vídeos ao longo da reportagem, você consegue perceber a diferença do antes e do depois de Cantão e Poranga.
“O Cantão está impressionante, tem fisionomia grande, de macho. Outras pessoas que têm experiência de onça em cativeiro falam que ele tem genética de ser grande, comparado com outras onças criadas em cativeiro e até em vida livre. A genética é de monstro mesmo. Já a Poranga chegou mais novinha e tivemos mais contato. Ela é mais mansa, se esfrega, pede carinho, tenho um contato mais íntimo”, comenta o médico veterinário e responsável pelo instituto, Leo Lorentz.
De fofinho à fera. O crescimento rápido dos dois já era esperado, até porque a onça-pintada é o maior felino das Américas. Um vídeo feito no instituto mostra Cantão forte, observador e caçador. Em outra imagem, ele parece brincar ao correr rapidamente atrás de um peixe, dentro da piscina, construída no cativeiro.
Se há meses atrás, os dois estavam aprendendo a comer carne com osso, hoje os animais já conseguem devorar um grande pedaço de costela. Em vida livre, a onça costuma a se alimentar da presa e ficar por três dias descansando. Em cativeiro, os hábitos tendem a ser reproduzidos.
“Hoje eu ofereço pedaços maiores, com ossos maiores, ele tem força para pegar uma costela bovina, um frango e devorar a carne inteira. A alimentação é dada a cada três dias, temos que tomar cuidado para não ficar acima do peso, porque no cativeiro eles não precisam caçar, nem correr, o metabolismo é mais lento. Por mais que o espaço seja grande para que eles possam nadar e subir nas árvores, nós controlamos a alimentação”.
O veterinário conta que os hábitos de Cantão mudaram. Ele é considerado um adolescente e costuma ficar no tronco mais alto, já demonstrando um comportamento territorialista. “Cantão é super na dele, tem um lugar específico no recinto que ele gosta, é o lugar mais alto, os predadores gostam de um lugar mais alto, ele escolheu o tronco e tem visão de todo o território, por mais que seja em cativeiro”.
Leo, que costumava tirar fotos ao lado de Cantão, não tem mais contato físico com ele. Para trocar a água da piscina e fazer a manutenção do recinto, há cuidados redobrados. O funcionário sempre está acompanhado e só entra após a onça ser presa. Com o passar do tempo, os hábitos, a forma de alimentação e comportamento dos animais silvestres vão se modificando. A ideia é que daqui a dois anos, os dois se reproduzam para construir uma família no instituto.
Para o veterinário, que cuida dos felinos, a experiência é enriquecedora. “Pra mim, a experiência está sendo incrível. Eu gosto de buscar informações, de falar com quem tem criadouro, que trabalha com onça-pintada, fico atento ao comportamento deles. Está sendo bem enriquecedor ver o crescimento dos animais, para a nossa equipe estar mais experiente quando os próximos chegarem”.
O Instituto Vale Rico fica em uma fazenda, dentro da região do Parque Estadual Cantão, uma das mais importantes áreas ambientais do Brasil. O local tem licença para receber os animais. O médico veterinário, Leonardo Egon Lorentz, mais conhecido como Léo Lorentz, filho dos donos da fazenda, divide a rotina entre o agronegócio e a conservação das espécies silvestres.
Nas redes sociais, ele chama a atenção ao compartilhar o dia a dia no local. Um vídeo mais fofo que o outro. Em um dos registros, ao som de uma trilha sonora romântica, uma arara-canindé pousa no braço do profissional para se alimentar. Em outro vídeo, uma ave pousa em um porquinho para pegar carona e dar uma voltinha.
“Eu sou apaixonado por tudo isso, tenho a vida que eu pedi a Deus, não posso reclamar de nada, sempre sonhei em ser veterinário. Na infância, eu dizia que queria ter um zoológico e eu nunca imaginei que o instituto tomaria proporções grandes e chegaria a ter uma onça-pintada, por exemplo". O instituto não tem fins lucrativos e sobrevive com a ajuda de doações e o investimento de empresas. O dinheiro que Léo arrecada no Instagram, através de publicidade, também é direcionado ao projeto.
Autor:AMZ Noticias com G1